A ignorância sobre Portugal revelada por Selassie

Eugénio Rosa
Procurando acalmar a reação geral provocada pelo disparate/falsidade que consta do Relatório do FMI, de que em “Portugal as transferências sociais concedem maiores benefícios aos grupos com rendimentos mais elevados do que aos grupos com rendimentos mais baixos, agravando as desigualdades”, portanto é “um sistema de proteção social regressivo” (pág. 14), a qual revela ou uma grande ignorância sobre o nosso país ou a intenção deliberada de manipulação da opinião pública, o sr. Abebe Selassie, em declarações agora divulgadas pelo Jornal de Negócios de 18.1.2013, vem dizer o seguinte: “É muito importante separar os gastos com pensões de outros gastos sociais”; “três quartos de despesa social recai sobre pensões que são menos dirigidas em termos de redução de pobreza de idosos”.
Com esta afirmação Selassie revela dois tipos de ignorância: (1) Que não conhece a importância do sistema de pensões na diminuição da pobreza em Portugal; (2) Que não sabe o que é um sistema de pensões que se baseia na lei que o Estado, se for pessoa de bem, deve respeitar, a qual estabelece que os pensionistas têm direito a uma pensão de acordo com as remunerações que descontaram e com o período de tempo que contribuíram. Em relação à 2ª questão não vamos perder tempo (aconselhamos o chefe do FMI a estudar as leis do sistema de segurança social), mas em relação à 1ª, em que Selassie mostra ignorância em relação à realidade, vamos analisar os efeitos das pensões na diminuição da pobreza em Portugal.
Segundo o INE, em 2011, 42,5%, ou seja, 4.488.926 portugueses estariam na situação de pobreza se não existissem transferências sociais, que incluem as pensões. Com as transferências sociais, aquela percentagem diminui para 18%, o que corresponde ainda a 1.901.192 de portugueses a viver com menos de 360€ por mês (14 meses).Portanto, as transferências fazem reduzir o numero de portugueses a viver na pobreza em 2.587.734. Deste total, 69,8%, ou seja, 1.806.238 portugueses só não vivem em situação de pobreza devido a receberem pensões. Os portugueses que não estão na situação de pobreza devido às outras prestações sociais (não considerando as pensões), são 781.495. E interessa lembrar mais uma vez que o limiar da pobreza oficial é de cerca de 360€ (14 meses), e quem auferir mais do que este valor já não é considerado pelo governo como pobre.
Afirmar como fez Abebe Selassie, chefe da missão do FMI na “troika” que “pensões que são menos dirigidas em termos de redução de pobreza de idosos”.de que “os outros gastos sociais” é revelar uma grande ignorância sobre a realidade portuguesa ou mentir descaradamente. Dramaticamente o que tem acontecido em Portugal, contrariamente também ao que o Relatório do FMI afirma, é que a maioria das pensões mínimas quer da Segurança Social quer da CGA não têm sido atualizadas como revelamos no estudo que divulgamos em 4.1.2013 (Ver nosso estudo “GOVERNO MENTE QUANDO AFIRMA QUE TODAS AS PENSÕES MINIMAS FORAM ATUALIZADAS”)
Em 2011, 64% dos pensionistas da Segurança Social e da CGA recebiam pensões inferiores a 419€/mês, e 77,3% pensões inferiores a 750€/mês. Apesar disto, o FMI defende no seu Relatório um corte geral em todas as pensões entre 10% e 20%, o que significaria um corte no rendimento dos pensionistas estimado, pelo próprio FMI, entre 2.250 milhões € e 4.500 milhões € por ano; a aplicação retroativa a todos os pensionistas do valor do fator de sustentabilidade de 2000-2007, o que significava mais um corte nos seus rendimentos entre 600 e 800 milhões €, etc., etc.
Ver estudo completo:
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| Eugénio Rosa |
Com esta afirmação Selassie revela dois tipos de ignorância: (1) Que não conhece a importância do sistema de pensões na diminuição da pobreza em Portugal; (2) Que não sabe o que é um sistema de pensões que se baseia na lei que o Estado, se for pessoa de bem, deve respeitar, a qual estabelece que os pensionistas têm direito a uma pensão de acordo com as remunerações que descontaram e com o período de tempo que contribuíram. Em relação à 2ª questão não vamos perder tempo (aconselhamos o chefe do FMI a estudar as leis do sistema de segurança social), mas em relação à 1ª, em que Selassie mostra ignorância em relação à realidade, vamos analisar os efeitos das pensões na diminuição da pobreza em Portugal.
Segundo o INE, em 2011, 42,5%, ou seja, 4.488.926 portugueses estariam na situação de pobreza se não existissem transferências sociais, que incluem as pensões. Com as transferências sociais, aquela percentagem diminui para 18%, o que corresponde ainda a 1.901.192 de portugueses a viver com menos de 360€ por mês (14 meses).Portanto, as transferências fazem reduzir o numero de portugueses a viver na pobreza em 2.587.734. Deste total, 69,8%, ou seja, 1.806.238 portugueses só não vivem em situação de pobreza devido a receberem pensões. Os portugueses que não estão na situação de pobreza devido às outras prestações sociais (não considerando as pensões), são 781.495. E interessa lembrar mais uma vez que o limiar da pobreza oficial é de cerca de 360€ (14 meses), e quem auferir mais do que este valor já não é considerado pelo governo como pobre.
Afirmar como fez Abebe Selassie, chefe da missão do FMI na “troika” que “pensões que são menos dirigidas em termos de redução de pobreza de idosos”.de que “os outros gastos sociais” é revelar uma grande ignorância sobre a realidade portuguesa ou mentir descaradamente. Dramaticamente o que tem acontecido em Portugal, contrariamente também ao que o Relatório do FMI afirma, é que a maioria das pensões mínimas quer da Segurança Social quer da CGA não têm sido atualizadas como revelamos no estudo que divulgamos em 4.1.2013 (Ver nosso estudo “GOVERNO MENTE QUANDO AFIRMA QUE TODAS AS PENSÕES MINIMAS FORAM ATUALIZADAS”)
Em 2011, 64% dos pensionistas da Segurança Social e da CGA recebiam pensões inferiores a 419€/mês, e 77,3% pensões inferiores a 750€/mês. Apesar disto, o FMI defende no seu Relatório um corte geral em todas as pensões entre 10% e 20%, o que significaria um corte no rendimento dos pensionistas estimado, pelo próprio FMI, entre 2.250 milhões € e 4.500 milhões € por ano; a aplicação retroativa a todos os pensionistas do valor do fator de sustentabilidade de 2000-2007, o que significava mais um corte nos seus rendimentos entre 600 e 800 milhões €, etc., etc.
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O relatório do FMI

Eugénio Rosa
A pedido do governo PSD/CDS (mais um exemplo do servilismo ao estrangeiro deste governo que despreza o saber cientifico nacional), o FMI elaborou um “estudo” com o titulo: “Rethinking the State – Selected Expenditure reform options”. O objetivo é claro como o próprio titulo o diz: “repensar o Estado”, ou seja, refundá-lo para utilizar as palavras de Passos Coelho. Para isso, é preciso começar por destrui-lo.
Quem se dê ao trabalho de ler as suas 76 páginas em inglês (nem se deram ao trabalho de o traduzir em português) conclui que ele é mais um exemplo do neoliberalismo defendido pela escola de Chicago de Friedman, sendo o seu objetivo a destruição do Estado, ou seja, da Administração Pública e das funções sociais do Estado. O FMI, ignorando mais uma vez a Constituição da República Portuguesa (para estes “senhores” ela não existe), e sem a definição do que deve ser o Estado em Portugal, apresentou um “pacotão” de medidas que, aplicadas, destruiriam os sistemas públicos de saúde, educação, e segurança social e lançariam o país numa recessão económica ainda maior. E para fundamentar essas medidas de natureza ideológicas, o FMI não hesita em utilizar mesmo dados falsos e inverdades como iremos provar.
A diretora do FMI, e o próprio representante do FMI na “troika”, em declarações públicas recentes afirmaram, por diversas vezes, que só austeridade não resolve nada, poderá criar mesmo uma situação “insustentável”. Contrariando essas posições públicas destes altos responsáveis do FMI, o FMI apresentou um “estudo” em que defende uma austeridade ainda mais violenta do que aquela que já está a ser imposta a Portugal (quadro 1), e nada diz sobre crescimento económico.
O quadro 1, com os principais dados do relatório do FMI, permite obter, de uma forma rápida e clara, uma ideia global da dimensão e consequências das medidas propostas pelo FMI. O corte na despesa pública com consequências dramáticas não só para os trabalhadores da Função Pública, pois determinaria dezenas de milhares de despedimentos, mas também para todos os portugueses, pois traduzir-se-ia em cortes brutais nos serviços de saúde e de educação prestados à população, e em reduções também muito grandes em todas as prestações sociais incluindo pensões, varia entre um mínimo de 10.611 milhões € e um máximo de 16.345 milhões €. Depois disto pouco restaria das funções sociais do Estado. É certo que o FMI não apresenta desta forma a questão. Para suavizar a “pastilha” afirma que são propostas alternativas, opções de cortes que o governo pode fazer. Mas o propósito é claro. É mostrar que não há limites para os cortes mesmos os impostos pela Constituição da República Portuguesa, que é ignorada mais uma vez pelo FMI. Para além disso, o objetivo é mostrar que os cortes são possíveis (há muito por onde cortar segundo o FMI), e servirá sempre com um elemento de pressão e um objetivo a exigir a um governo submisso cuja única preocupação tem sido o de satisfazer as exigências estrangeiras.
Toda a gente sabe que a sustentabilidade das funções sociais do Estado está muito dependente do crescimento económico, mas o FMI ignora isso que é elementar em qualquer estudo técnico credível. Quanto mais elevado é o crescimento maiores serão as receitas do Estado e da Segurança Social, e menores serão as despesas desta com prestações sociais (subsidio de desemprego, RSI, etc.). Seria lógico que num estudo desta natureza essa questão fosse estudada pois ela tem naturalmente reflexos importantes na seleção de medidas. Mas mesmo isso foi “esquecido” pelo FMI. Por aqui também se vê a falta de credibilidade técnica do estudo do FMI e o condicionamento ideológico que o orienta. No fundo, ele é apenas um trabalho de “cola e corte” que podia ser feito por qualquer contabilista em Portugal desde que lhe fornecessem os dados, ou pelo próprio Vítor Gaspar com a sua folha de cálculo.
O FMI não só se “esqueceu” de analisar os efeitos sociais das medidas que propõe, que são dramáticos, mas também as consequências económicas destas mesmas medidas, que são brutais. Utilizando o multiplicador recessivo elaborado pelo próprio FMI (redução do défice orçamental em 1 => redução PIB em 1,7), um corte no défice orçamental de apenas 4.000 milhões € (o valor inicial referido pelo governo) determinaria uma quebra no PIB que, segundo o próprio FMI, poderia atingir 4%. Portanto, a recessão grave que o país já enfrenta, com a multiplicação de falências de empresas e o disparar do desemprego, a destruição do tecido económico e social, ainda se agravaria mais. Mas tudo isto é “esquecido” pelo FMI, o que é esclarecedor
Para justificar as medidas o FMI utiliza dados que não são verdadeiros e faz considerações que revelam grande ignorância sobre a realidade portuguesa, o que mostra a falta de credibilidade técnica do estudo. Vamos provar isso, analisando alguns desses dados que são fundamentais no estudo..
O estudo contêm um ataque violento ao sistema de segurança social português e à Administração Pública procurando assim justificar os cortes brutais que defende relativamente aos pensionistas e à Função Pública. E esses ataques baseiam-se em dados e afirmações que são falsas.
Na pág. 14 do documento do FMI pode-se ler textualmente o seguinte: o sistema de segurança social “serve para reforçar a desigualdade entre ricos e pobres”, e em “Portugal as transferências sociais beneficiam mais os grupos de rendimentos elevados do que os de baixos rendimentos”, portanto para estes “senhores do FMI, a Segurança Social seria um instrumento de agravamento de desigualdades por isso haveria que destrui-la. Confrontemos estas justificações do FMI com dados recentes do INE e da Segurança Social, que estes “senhores “ ignoram deliberadamente. Segundo o INE (“Rendimento e Condições de Vida em 2011” divulgado pelo INE em 13.7.2012), em 2011, a taxa de risco de pobreza em Portugal atingia 42,5% da população antes de qualquer transferência social; 25,4% após as transferências relativas a pensões; e 18% após as transferências sociais. Afirmar, como faz o FMI no seu estudo, que o sistema de segurança social em Portugal “serve para reforçar a desigualdade entre pobres e ricos”, quando ele baixa a taxa de risco de pobreza de 42,5% para 18% segundo o próprio INE, é dar uma prova de um desconhecimento total da realidade portuguesa. Mesmo tomando como base os dados divulgados na Conta da Segurança Social de 2011, relativos apenas às pensões conclui-se que 57,1% da despesa com pensões foi com pensões até 419€, e se incluímos as até 629 € aquela percentagem sobe para 94,6%. Afirmar como consta do quadro 5.2 (pág. 54) do estudo do FMI, que os 20% dos pensionistas mais ricos recebem 41,6% do valor das pensões é procurar manipular a opinião publica, pois na Segurança Social, segundo o Relatório de 2011, um terço dos pensionistas considerados ricos pelo FMI recebem pensões entre 419€ e 629€.. Na CGA, em 2011, 30,6% dos aposentados recebiam pensões inferiores a 750€, e os que auferiam pensões inferiores a 1.500€ representavam 67,4% do total. Em 2011, na Segurança Social apenas 524 pensionistas recebiam pensões superiores a 5.594€, e na CGA somente 5.235 aposentados (1,2% do total) tinham pensões superiores a 4.000€. Finalmente, por ignorância ou com o objetivo deliberado de manipular a opinião pública, o FMI confunde um sistema de segurança social com um sistema de assistência social. Num sistema de segurança social, os pensionistas recebem uma pensão correspondente à remuneração com base na qual fizeram descontos e de acordo com os anos que descontaram, por isso o valor das pensões são inevitavelmente diferentes, o que não acontece num sistema de assistência social com critérios diferentes. No entanto, o FMI pretende transformar, com os cortes brutais nas pensões que defende, o atual sistema de segurança socia num sistema em que se recebe apenas a pensão mínima, pois para o FMI e para o governo pensões superiores ao limiar de pobreza são pensões de ricos.
O FMI utiliza dados que não são verdadeiros sobre as remunerações dos trabalhadores da Função Pública e, nomeadamente, dos médicos e professores, para defender cortes significativos nas suas remunerações e mesmo despedimentos de dezenas de milhares de trabalhadores com o objetivo de reduzir a despesa pública o que, a acontecer, agravaria dramaticamente as condições de vida no pais.
Na pág. 20 do estudo, referindo-se a toda a Função Pública, diz que, apesar do esforço do governo para reduzir a despesa de pessoal, Portugal é ainda um país com uma despesa média excessiva se se comparar com o PIB per-capita, remetendo depois para o quadro 3.3.onde consta um gráfico com o rácio de vários países obtido dividindo a remuneração por trabalhador pelo PIB per capita em 2011. E aparece para Portugal, o valor de 2,25 que é, depois da Grécia, o valor mais elevado dos 15 países considerados. No entanto, o valor atribuído a Portugal é falso como vamos provar. Segundo o INE, o PIB de Portugal em 2011 foi de 171.039,8 milhões €. Dividindo este valor pelo número de habitantes (10,562 milhões), obtém-se um PIB “per capita” de 16.194 €. Segundo a Direção Geral da Administração e Emprego Público do Ministério das Finanças, o ganho médio dos trabalhadores da Função Pública em 2011 foi de 1.590 € por mês. Multiplicando-o por 14 obtém-se 22.260 €, e dividindo pelo PIB “per capita” do mesmo ano – 16194 € - obtém-se um rácio de 1,37 que é inferior em 39% ao rácio utilizado pelo FMI – 2,25 – o que coloca Portugal no grupo de países com o rácio mais baixo.
Mas não é apenas neste caso que os dados utilizados pelo FMI no seu estudo para justificar as suas propostas não são verdadeiros. No seu ataque aos médicos por considerar que ganham muito o FMI afirma no seu relatório o seguinte: “O trabalho extraordinário representa 1/3 do salário dos médicos” (pág. 22). Confrontemos esta afirmação com os valores das remunerações e ganhos médios dos médicos divulgados pela DGAEP do Ministério das Finanças. Em 2012, a remuneração ilíquida base média dos médicos era de 2.939 € por mês, e o ganho médio, que inclui todas as outras remunerações acessórias, incluindo horas extraordinárias, subsidio de refeição, etc. foi de 3.803 €, ou seja, apenas mais 22,7% que a remuneração base e não os 33% que o FMI refere apenas a horas extraordinárias. No estudo do FMI consta também um gráfico (3.7 da pág. 32), com as remunerações dos médicos e dos enfermeiros de vários países em 2010. E para Portugal, para os médicos é apresentada uma remuneração anual de 90.000 dólares PPP colocando o nosso país entre os países com remunerações mais elevadas. Confrontemos este valor utilizado pelo FMI com os dados divulgados pelo Ministério das Finanças. Segundo a DGAEP, o ganho médio iliquido de um médico em Portugal foi de 3.803€/mês, o que dá 53.243€/ano. Multiplicando este valor pelo coeficiente de transformação do euro em dólares PPP, para o valor poder ser comparado com os do quadro 3.7 do estudo do FMI, obtém-se para a remuneração anual do médico em Portugal 70.406 dólares PPP, portanto um valor muito inferior ao 90.000$ PPP utilizados pelo FMI, o que coloca Portugal no último escalão do grupo intermédio, portanto uma situação muito diferente da utilizada pelo FMI para justificar os ataques aos médicos portugueses.
Em relação ao custo médio por aluno no setor público e no setor privado existe uma grande manipulação da opinião publica, em que o FMI também colabora, e que por isso interessa esclarecer. E essa manipulação tem utilizado dados de uma auditoria do Tribunal de Constas que os autores dessa manipulação revelam não ter lido com atenção E os dados utilizados têm sido os seguintes: o custo médio por aluno numa escola privada financiada pelo Estado é de 4.522€, enquanto numa pública é de 4.921€, e concluem que vale a pena apostar no privado pois é mais barato. No entanto esquecem-se de analisar com maior profundidade os dados de custo por turma e por aluno constantes da pág. 47 do Relatório do Tribunal de Contas. E se o fizessem concluíram-se que ele tem por base turmas em média com 24 alunos, atingindo mesmo 25 alunos turma na região Norte. Enquanto isto sucede nas escolas privadas, nas escolas públicas a média é 22 alunos por turma. Podia-se reduzir imediatamente o custo médio por aluno nas escolas públicas aumentando o número de alunos por turma, mas isso envolve problemas pedagógicos e da qualidade do ensino que interessaria estudar e tomar decisões corretas.
Um outro ataque aos professores constante do estudo do FMI é o das remunerações dos professores serem excessivas quando se comparam com as pagas em outros países da U.E. Para isso utilizam-se dados da OCDE. No entanto, quando comparamos esses dados com os divulgados pela DGAEP do Ministério das Finanças sobre as remunerações dos professores em Portugal no ano 2012 constata-se também grandes disparidades com as utilizadas pelo FMI. Segundo os dados utilizados no estudo do FMI, um professor no fim da carreira ganha em Portugal 40.956€ /ano ilíquidos. No entanto, segundo a DGAEP, o ganho médio ilíquido anual de um professor do ensino básico e secundário foi, em 2012, de apenas de 24.365€ (28.365 € se for considerado 14 meses), portanto um remunerações inferior à utilizada pelo FMI no seu estudo para atacar os professores portugueses.
Em resumo, o estudo do FMI não tem qualquer credibilidade técnica como o governo e defensores pretendem fazer crer porque utiliza dados que não são verdadeiros; por outro lado, mostra que o FMI não compreende o papel fundamental do Estado em Portugal para a coesão social e para o desenvolvimento; e, finalmente, está condicionado por preconceitos ideológicos sobre o Estado como é claro em todo ele que analisaremos em outro estudo conjuntamente com as conceção de Estado de Vítor Gaspar e o falso dilema colocado por ele de “menos funções sociais do Estado ou mais impostos”.
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| Eugénio Rosa |
Quem se dê ao trabalho de ler as suas 76 páginas em inglês (nem se deram ao trabalho de o traduzir em português) conclui que ele é mais um exemplo do neoliberalismo defendido pela escola de Chicago de Friedman, sendo o seu objetivo a destruição do Estado, ou seja, da Administração Pública e das funções sociais do Estado. O FMI, ignorando mais uma vez a Constituição da República Portuguesa (para estes “senhores” ela não existe), e sem a definição do que deve ser o Estado em Portugal, apresentou um “pacotão” de medidas que, aplicadas, destruiriam os sistemas públicos de saúde, educação, e segurança social e lançariam o país numa recessão económica ainda maior. E para fundamentar essas medidas de natureza ideológicas, o FMI não hesita em utilizar mesmo dados falsos e inverdades como iremos provar.
A diretora do FMI, e o próprio representante do FMI na “troika”, em declarações públicas recentes afirmaram, por diversas vezes, que só austeridade não resolve nada, poderá criar mesmo uma situação “insustentável”. Contrariando essas posições públicas destes altos responsáveis do FMI, o FMI apresentou um “estudo” em que defende uma austeridade ainda mais violenta do que aquela que já está a ser imposta a Portugal (quadro 1), e nada diz sobre crescimento económico.
O quadro 1, com os principais dados do relatório do FMI, permite obter, de uma forma rápida e clara, uma ideia global da dimensão e consequências das medidas propostas pelo FMI. O corte na despesa pública com consequências dramáticas não só para os trabalhadores da Função Pública, pois determinaria dezenas de milhares de despedimentos, mas também para todos os portugueses, pois traduzir-se-ia em cortes brutais nos serviços de saúde e de educação prestados à população, e em reduções também muito grandes em todas as prestações sociais incluindo pensões, varia entre um mínimo de 10.611 milhões € e um máximo de 16.345 milhões €. Depois disto pouco restaria das funções sociais do Estado. É certo que o FMI não apresenta desta forma a questão. Para suavizar a “pastilha” afirma que são propostas alternativas, opções de cortes que o governo pode fazer. Mas o propósito é claro. É mostrar que não há limites para os cortes mesmos os impostos pela Constituição da República Portuguesa, que é ignorada mais uma vez pelo FMI. Para além disso, o objetivo é mostrar que os cortes são possíveis (há muito por onde cortar segundo o FMI), e servirá sempre com um elemento de pressão e um objetivo a exigir a um governo submisso cuja única preocupação tem sido o de satisfazer as exigências estrangeiras.
Toda a gente sabe que a sustentabilidade das funções sociais do Estado está muito dependente do crescimento económico, mas o FMI ignora isso que é elementar em qualquer estudo técnico credível. Quanto mais elevado é o crescimento maiores serão as receitas do Estado e da Segurança Social, e menores serão as despesas desta com prestações sociais (subsidio de desemprego, RSI, etc.). Seria lógico que num estudo desta natureza essa questão fosse estudada pois ela tem naturalmente reflexos importantes na seleção de medidas. Mas mesmo isso foi “esquecido” pelo FMI. Por aqui também se vê a falta de credibilidade técnica do estudo do FMI e o condicionamento ideológico que o orienta. No fundo, ele é apenas um trabalho de “cola e corte” que podia ser feito por qualquer contabilista em Portugal desde que lhe fornecessem os dados, ou pelo próprio Vítor Gaspar com a sua folha de cálculo.
O FMI não só se “esqueceu” de analisar os efeitos sociais das medidas que propõe, que são dramáticos, mas também as consequências económicas destas mesmas medidas, que são brutais. Utilizando o multiplicador recessivo elaborado pelo próprio FMI (redução do défice orçamental em 1 => redução PIB em 1,7), um corte no défice orçamental de apenas 4.000 milhões € (o valor inicial referido pelo governo) determinaria uma quebra no PIB que, segundo o próprio FMI, poderia atingir 4%. Portanto, a recessão grave que o país já enfrenta, com a multiplicação de falências de empresas e o disparar do desemprego, a destruição do tecido económico e social, ainda se agravaria mais. Mas tudo isto é “esquecido” pelo FMI, o que é esclarecedor
Para justificar as medidas o FMI utiliza dados que não são verdadeiros e faz considerações que revelam grande ignorância sobre a realidade portuguesa, o que mostra a falta de credibilidade técnica do estudo. Vamos provar isso, analisando alguns desses dados que são fundamentais no estudo..
O estudo contêm um ataque violento ao sistema de segurança social português e à Administração Pública procurando assim justificar os cortes brutais que defende relativamente aos pensionistas e à Função Pública. E esses ataques baseiam-se em dados e afirmações que são falsas.
Na pág. 14 do documento do FMI pode-se ler textualmente o seguinte: o sistema de segurança social “serve para reforçar a desigualdade entre ricos e pobres”, e em “Portugal as transferências sociais beneficiam mais os grupos de rendimentos elevados do que os de baixos rendimentos”, portanto para estes “senhores do FMI, a Segurança Social seria um instrumento de agravamento de desigualdades por isso haveria que destrui-la. Confrontemos estas justificações do FMI com dados recentes do INE e da Segurança Social, que estes “senhores “ ignoram deliberadamente. Segundo o INE (“Rendimento e Condições de Vida em 2011” divulgado pelo INE em 13.7.2012), em 2011, a taxa de risco de pobreza em Portugal atingia 42,5% da população antes de qualquer transferência social; 25,4% após as transferências relativas a pensões; e 18% após as transferências sociais. Afirmar, como faz o FMI no seu estudo, que o sistema de segurança social em Portugal “serve para reforçar a desigualdade entre pobres e ricos”, quando ele baixa a taxa de risco de pobreza de 42,5% para 18% segundo o próprio INE, é dar uma prova de um desconhecimento total da realidade portuguesa. Mesmo tomando como base os dados divulgados na Conta da Segurança Social de 2011, relativos apenas às pensões conclui-se que 57,1% da despesa com pensões foi com pensões até 419€, e se incluímos as até 629 € aquela percentagem sobe para 94,6%. Afirmar como consta do quadro 5.2 (pág. 54) do estudo do FMI, que os 20% dos pensionistas mais ricos recebem 41,6% do valor das pensões é procurar manipular a opinião publica, pois na Segurança Social, segundo o Relatório de 2011, um terço dos pensionistas considerados ricos pelo FMI recebem pensões entre 419€ e 629€.. Na CGA, em 2011, 30,6% dos aposentados recebiam pensões inferiores a 750€, e os que auferiam pensões inferiores a 1.500€ representavam 67,4% do total. Em 2011, na Segurança Social apenas 524 pensionistas recebiam pensões superiores a 5.594€, e na CGA somente 5.235 aposentados (1,2% do total) tinham pensões superiores a 4.000€. Finalmente, por ignorância ou com o objetivo deliberado de manipular a opinião pública, o FMI confunde um sistema de segurança social com um sistema de assistência social. Num sistema de segurança social, os pensionistas recebem uma pensão correspondente à remuneração com base na qual fizeram descontos e de acordo com os anos que descontaram, por isso o valor das pensões são inevitavelmente diferentes, o que não acontece num sistema de assistência social com critérios diferentes. No entanto, o FMI pretende transformar, com os cortes brutais nas pensões que defende, o atual sistema de segurança socia num sistema em que se recebe apenas a pensão mínima, pois para o FMI e para o governo pensões superiores ao limiar de pobreza são pensões de ricos.
O FMI utiliza dados que não são verdadeiros sobre as remunerações dos trabalhadores da Função Pública e, nomeadamente, dos médicos e professores, para defender cortes significativos nas suas remunerações e mesmo despedimentos de dezenas de milhares de trabalhadores com o objetivo de reduzir a despesa pública o que, a acontecer, agravaria dramaticamente as condições de vida no pais.
Na pág. 20 do estudo, referindo-se a toda a Função Pública, diz que, apesar do esforço do governo para reduzir a despesa de pessoal, Portugal é ainda um país com uma despesa média excessiva se se comparar com o PIB per-capita, remetendo depois para o quadro 3.3.onde consta um gráfico com o rácio de vários países obtido dividindo a remuneração por trabalhador pelo PIB per capita em 2011. E aparece para Portugal, o valor de 2,25 que é, depois da Grécia, o valor mais elevado dos 15 países considerados. No entanto, o valor atribuído a Portugal é falso como vamos provar. Segundo o INE, o PIB de Portugal em 2011 foi de 171.039,8 milhões €. Dividindo este valor pelo número de habitantes (10,562 milhões), obtém-se um PIB “per capita” de 16.194 €. Segundo a Direção Geral da Administração e Emprego Público do Ministério das Finanças, o ganho médio dos trabalhadores da Função Pública em 2011 foi de 1.590 € por mês. Multiplicando-o por 14 obtém-se 22.260 €, e dividindo pelo PIB “per capita” do mesmo ano – 16194 € - obtém-se um rácio de 1,37 que é inferior em 39% ao rácio utilizado pelo FMI – 2,25 – o que coloca Portugal no grupo de países com o rácio mais baixo.
Mas não é apenas neste caso que os dados utilizados pelo FMI no seu estudo para justificar as suas propostas não são verdadeiros. No seu ataque aos médicos por considerar que ganham muito o FMI afirma no seu relatório o seguinte: “O trabalho extraordinário representa 1/3 do salário dos médicos” (pág. 22). Confrontemos esta afirmação com os valores das remunerações e ganhos médios dos médicos divulgados pela DGAEP do Ministério das Finanças. Em 2012, a remuneração ilíquida base média dos médicos era de 2.939 € por mês, e o ganho médio, que inclui todas as outras remunerações acessórias, incluindo horas extraordinárias, subsidio de refeição, etc. foi de 3.803 €, ou seja, apenas mais 22,7% que a remuneração base e não os 33% que o FMI refere apenas a horas extraordinárias. No estudo do FMI consta também um gráfico (3.7 da pág. 32), com as remunerações dos médicos e dos enfermeiros de vários países em 2010. E para Portugal, para os médicos é apresentada uma remuneração anual de 90.000 dólares PPP colocando o nosso país entre os países com remunerações mais elevadas. Confrontemos este valor utilizado pelo FMI com os dados divulgados pelo Ministério das Finanças. Segundo a DGAEP, o ganho médio iliquido de um médico em Portugal foi de 3.803€/mês, o que dá 53.243€/ano. Multiplicando este valor pelo coeficiente de transformação do euro em dólares PPP, para o valor poder ser comparado com os do quadro 3.7 do estudo do FMI, obtém-se para a remuneração anual do médico em Portugal 70.406 dólares PPP, portanto um valor muito inferior ao 90.000$ PPP utilizados pelo FMI, o que coloca Portugal no último escalão do grupo intermédio, portanto uma situação muito diferente da utilizada pelo FMI para justificar os ataques aos médicos portugueses.
Em relação ao custo médio por aluno no setor público e no setor privado existe uma grande manipulação da opinião publica, em que o FMI também colabora, e que por isso interessa esclarecer. E essa manipulação tem utilizado dados de uma auditoria do Tribunal de Constas que os autores dessa manipulação revelam não ter lido com atenção E os dados utilizados têm sido os seguintes: o custo médio por aluno numa escola privada financiada pelo Estado é de 4.522€, enquanto numa pública é de 4.921€, e concluem que vale a pena apostar no privado pois é mais barato. No entanto esquecem-se de analisar com maior profundidade os dados de custo por turma e por aluno constantes da pág. 47 do Relatório do Tribunal de Contas. E se o fizessem concluíram-se que ele tem por base turmas em média com 24 alunos, atingindo mesmo 25 alunos turma na região Norte. Enquanto isto sucede nas escolas privadas, nas escolas públicas a média é 22 alunos por turma. Podia-se reduzir imediatamente o custo médio por aluno nas escolas públicas aumentando o número de alunos por turma, mas isso envolve problemas pedagógicos e da qualidade do ensino que interessaria estudar e tomar decisões corretas.
Um outro ataque aos professores constante do estudo do FMI é o das remunerações dos professores serem excessivas quando se comparam com as pagas em outros países da U.E. Para isso utilizam-se dados da OCDE. No entanto, quando comparamos esses dados com os divulgados pela DGAEP do Ministério das Finanças sobre as remunerações dos professores em Portugal no ano 2012 constata-se também grandes disparidades com as utilizadas pelo FMI. Segundo os dados utilizados no estudo do FMI, um professor no fim da carreira ganha em Portugal 40.956€ /ano ilíquidos. No entanto, segundo a DGAEP, o ganho médio ilíquido anual de um professor do ensino básico e secundário foi, em 2012, de apenas de 24.365€ (28.365 € se for considerado 14 meses), portanto um remunerações inferior à utilizada pelo FMI no seu estudo para atacar os professores portugueses.
Em resumo, o estudo do FMI não tem qualquer credibilidade técnica como o governo e defensores pretendem fazer crer porque utiliza dados que não são verdadeiros; por outro lado, mostra que o FMI não compreende o papel fundamental do Estado em Portugal para a coesão social e para o desenvolvimento; e, finalmente, está condicionado por preconceitos ideológicos sobre o Estado como é claro em todo ele que analisaremos em outro estudo conjuntamente com as conceção de Estado de Vítor Gaspar e o falso dilema colocado por ele de “menos funções sociais do Estado ou mais impostos”.
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A armadilha do crescente endividamento do Estado e a opção de saída do euro

Eugénio Rosa
O governo PSD/CDS, a “troika”, e os seus defensores têm procurado convencer os portugueses que o chamado “Programa de Ajustamento Económico e Financeiro” (PAEF) que está a ser imposto ao país tem tido êxito, que os seus objetivos estão a ser alcançados, que os sacrifícios que os portugueses estão a suportar estão a ter resultados, já que o aumento da divida foi estancado, e o país “regressará aos mercados” e ao crescimento económico. Tudo isto é um grande embuste que não resiste nem mesmo ao confronto com os próprios dados oficiais do Banco de Portugal.
Segundo o Banco de Portugal, no período Dez.2008/Out.2012, o endividamento das Administrações Públicas, das empresas públicas e privadas, e dos particulares aumentou de 642.759 milhões € para 756.968 milhões € (4,5 vezes o valor do PIB de 2012), e o endividamento externo cresceu de 149.108 milhões € para 209.287 milhões €, ou seja, em 40,4%. Mas foi precisamente depois de 2010, ou seja, depois da tomada de posse do governo PSD/CDS e da entrada da “troika” em Portugal que o endividamento cresceu mais acentuadamente. Para conclui isso, basta ter presente que 66,8% do aumento do endividamento externo verificado nos quatro anos (2008/2012) teve lugar nos últimos dois anos (Dez.2010/Out.2012), ou seja, com o governo PSD/CDS e “troika”.
Portanto, a politica imposta pelos credores externos, e tão empenhadamente adotada por Passos Coelho e pelo seu ministro das Finanças está a empurrar também o país para a armadilha da divida e, nomeadamente, da divida externa. Portugal está cada vez mais endividado. A atual politica tem-se saldado, também neste campo, por um profundo falhanço já que a divida não tem parado de crescer, o que está a causar que os encargos com a divida tenham disparado, tornando cada vez mais insustentável a situação, Mesmo utilizando valores consolidados as conclusões não se alteram. Por ex., se deduzirmos na divida das Administrações Públicas a parcela que é financiada pela própria Administração Pública, a divida aumenta, entre Dez.2008 e Out.2012, de 125.242 milhões € para 207.412 milhões € (+65,6%).
Os dados do Banco de Portugal mostram, com clareza, que Portugal está-se a afundar cada vez mais na armadilha da divida empurrado pela politica de austeridade imposta pela “troika” com a colaboração empenhada do governo PSD/CDS. Este vertiginoso endividamento cria problemas graves ao país e aos portugueses, agravando dependências e obstáculos ao desenvolvimento e a uma politica de crescimento económico de acordo com os interesses nacionais. Mesmo aqueles que defendem a saída do euro como a solução para a atual situação não analisam os efeitos que tal opção terá para o país e para os portugueses, com o rigor, profundidade e abrangência necessária, se tal opção tiver de ser tomada, a continuar a atual politica de austeridade, que está a mergulhar Portugal numa espiral recessiva como o próprio presidente da República foi obrigado a reconhecer na mensagem de fim de ano. Tal omissão, por parte daqueles que defendem a opção da saída do euro, só tem facilitado a manipulação da opinião pública pelo governo e pela direita que dizem que a saída será uma catástrofe.
Para se poder ter uma ideia da natureza da armadilha da divida é importante também ter presente que, segundo o Banco de Portugal, em Out.2012, 350.256 milhões € da divida total de 756.968 milhões € foi financiada pelo setor financeiro, e que o passivo da banca ao exterior atingia, em Set.2012, 114.243 milhões €, tendo diminuído, entre Dez./2010 e Set.2012, em 68.127 milhões €, o que revela as dificuldades crescentes que a banca portuguesa está a enfrentar para se financiar no exterior.
Se analisarmos agora a estrutura do crédito bancário em Portugal, os problemas que a armadilha da divida criam ao país e à saída do euro, apenas nesta área, tornam-se ainda mais claros. O quadro 2, construído também com dados do Banco de Portugal, mostra que os problemas resultantes da má gestão dos banqueiros estão-se a agravar, e vão agravar muito mais no futuro com a politica de austeridade violenta e recessiva, e com o consequente agravamento da crise económica e social.
Segundo o Banco de Portugal (quadro 2), o crédito bancário tem estado em Portugal orientado fundamentalmente para a especulação imobiliária e para a habitação e muito pouco para a atividade produtiva. Ainda em Out.2012, 31,4% do crédito da banca às empresas estava concentrado no setor da construção e imobiliário, e apenas 13,7% nas empresas transformadoras e extrativas. Se somarmos o credito concedido às empresas e aos particulares (276.308 milhões € em Out.2012), 57,8% era crédito a empresas da construção e imobiliárias, e à habitação. O ministro da Economia fala da necessidade de reindustrializar o país mas o governo nada faz para alterar esta situação (concentração do crédito em atividades não produtivas e redução do crédito às empresas em 15.143 milhões €), o que mostra que não passa de palavras Esta cadeia de dependências sucessivas – endividamento financiado pela banca, financiamento desta no estrangeiro, 57% do credito bancário concentrado no imobiliário, construção e habitação – contribui para o agravamento da crise num quadro de uma politica de austeridade violenta e recessiva, e coloca problemas importantes à saída do euro que é necessário estudar.
Contrariamente àqueles que, parafraseado Fernando Ulrich (gestor de um banco –BPI- em que 97,1% das participações qualificadas já são controladas por grupos económicos estrangeiros), afirmam que a banca pode aguentar mais, uma análise da situação atual da banca portuguesa revela que, como consequência da má gestão, de que a politica de crédito já referida é uma prova clara, e da descapitalização realizada ao longo dos anos pelos banqueiros perante a passividade do BdP e dos sucessivos governos, associada à crise, agravou os problemas estruturais da banca que vão aumentar com a crise e a consequente subida do incumprimento e a retração do crédito (o negócio dos bancos). Basta recordar que o incumprimento a nível de empréstimos a empresas disparou (entre Dez.2010 e Nov.2012, com a politica do governo PSD/CDS e da “troika”, a taxa de incumprimento a nível de empresas aumentou de 4,4% para 10,8%, ou seja, em 145%); que as imparidades na banca (desvalorização de ativos), entre Dez.2010 e Set.2012, passaram de 13.545 milhões € para 15.153 milhões €; e, para além disto, a maior parte do crédito à habitação é de longo prazo a taxas de juro (inclui “spread”) inferiores a 2%, quando os bancos estão a pagar, para se financiarem, em muitos casos taxas de juro superiores. O caso do BANIF, em que o governo decidiu recapitalizar com 1.100 milhões € de fundos públicos (o que corresponde a 99% do seu capital atual), correndo o risco, como sucedeu no BPN, de os perder, é a “ponta do iceberg” da má gestão que é urgente exigir responsabilidades, o Estado controlar os maiores bancos, e não apenas a financiá-los à custa dos contribuintes.
Neste contexto, a saída do euro terá efeitos importantes no sistema bancário português que tem graves problemas estruturais, nomeadamente a nível do crédito concedido e, também, aos seus devedores, entre os quais se encontram centenas de milhares de famílias que obtiveram crédito à banca, cujas taxas de juros poderão disparar. Se juntarmos a isto, os problemas que se colocarão relativamente aos depósitos bancários de particulares (152.799 milhões € em Dez.2011), onde estão incluídas as pequenas poupanças de centenas de milhares de portugueses, cujo poder de compra é necessário garantir (os detentores dos grandes depósitos vão procurar transferir para o estrangeiro), fica-se com uma ideia, ainda não total, dos problemas que poderá acarretar a saída do euro, que não se resumem apenas à desvalorização do escudo e à subida de preços com alguns referem, que terão de ser estudados com profundidade e atempadamente, para não se ser confrontado com uma situação que não se previu. É certo que o Estado pode ser o garante do poder de compra desses milhares de pequenas poupanças, assim como de taxas de juro bonificadas às famílias, para evitar que o sistema financeiro e as famílias entrem em colapso, mas o certo é que a divida publica e a massa monetária disparariam, contribuindo para o aumento da inflação a que se juntaria os efeitos da desvalorização do escudo necessária para aumentar a competitividade das exportações, o que faria subir ainda mais os preços o que teria um efeito corrosivo, por ex., sobre salários e pensões. Haveria ainda o problema da divida externa que, com o governo PSD/CDS e com “troika”, já aumentou mais de 40.000 milhões €, e para a pagar, pelo menos a legitima, o país teria de ter divisas e a única fonte seriam as exportações e o endividamento externo. Obter o apoio da U.E. na divida externa seria uma condição fundamental para se poder sair do euro de uma forma controlada. São problemas como estes que terão de ser estudados com profundidade e de uma forma muito objetiva, não tomando os desejos pela realidade, para que se possa enfrentar, de uma forma controlada, a opção de saída do euro que se colocará se a atual politica de austeridade, que está a atirar o país para uma espiral recessiva, continuar.
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| Eugénio Rosa |
Segundo o Banco de Portugal, no período Dez.2008/Out.2012, o endividamento das Administrações Públicas, das empresas públicas e privadas, e dos particulares aumentou de 642.759 milhões € para 756.968 milhões € (4,5 vezes o valor do PIB de 2012), e o endividamento externo cresceu de 149.108 milhões € para 209.287 milhões €, ou seja, em 40,4%. Mas foi precisamente depois de 2010, ou seja, depois da tomada de posse do governo PSD/CDS e da entrada da “troika” em Portugal que o endividamento cresceu mais acentuadamente. Para conclui isso, basta ter presente que 66,8% do aumento do endividamento externo verificado nos quatro anos (2008/2012) teve lugar nos últimos dois anos (Dez.2010/Out.2012), ou seja, com o governo PSD/CDS e “troika”.
Portanto, a politica imposta pelos credores externos, e tão empenhadamente adotada por Passos Coelho e pelo seu ministro das Finanças está a empurrar também o país para a armadilha da divida e, nomeadamente, da divida externa. Portugal está cada vez mais endividado. A atual politica tem-se saldado, também neste campo, por um profundo falhanço já que a divida não tem parado de crescer, o que está a causar que os encargos com a divida tenham disparado, tornando cada vez mais insustentável a situação, Mesmo utilizando valores consolidados as conclusões não se alteram. Por ex., se deduzirmos na divida das Administrações Públicas a parcela que é financiada pela própria Administração Pública, a divida aumenta, entre Dez.2008 e Out.2012, de 125.242 milhões € para 207.412 milhões € (+65,6%).
Os dados do Banco de Portugal mostram, com clareza, que Portugal está-se a afundar cada vez mais na armadilha da divida empurrado pela politica de austeridade imposta pela “troika” com a colaboração empenhada do governo PSD/CDS. Este vertiginoso endividamento cria problemas graves ao país e aos portugueses, agravando dependências e obstáculos ao desenvolvimento e a uma politica de crescimento económico de acordo com os interesses nacionais. Mesmo aqueles que defendem a saída do euro como a solução para a atual situação não analisam os efeitos que tal opção terá para o país e para os portugueses, com o rigor, profundidade e abrangência necessária, se tal opção tiver de ser tomada, a continuar a atual politica de austeridade, que está a mergulhar Portugal numa espiral recessiva como o próprio presidente da República foi obrigado a reconhecer na mensagem de fim de ano. Tal omissão, por parte daqueles que defendem a opção da saída do euro, só tem facilitado a manipulação da opinião pública pelo governo e pela direita que dizem que a saída será uma catástrofe.
Para se poder ter uma ideia da natureza da armadilha da divida é importante também ter presente que, segundo o Banco de Portugal, em Out.2012, 350.256 milhões € da divida total de 756.968 milhões € foi financiada pelo setor financeiro, e que o passivo da banca ao exterior atingia, em Set.2012, 114.243 milhões €, tendo diminuído, entre Dez./2010 e Set.2012, em 68.127 milhões €, o que revela as dificuldades crescentes que a banca portuguesa está a enfrentar para se financiar no exterior.
Se analisarmos agora a estrutura do crédito bancário em Portugal, os problemas que a armadilha da divida criam ao país e à saída do euro, apenas nesta área, tornam-se ainda mais claros. O quadro 2, construído também com dados do Banco de Portugal, mostra que os problemas resultantes da má gestão dos banqueiros estão-se a agravar, e vão agravar muito mais no futuro com a politica de austeridade violenta e recessiva, e com o consequente agravamento da crise económica e social.
Segundo o Banco de Portugal (quadro 2), o crédito bancário tem estado em Portugal orientado fundamentalmente para a especulação imobiliária e para a habitação e muito pouco para a atividade produtiva. Ainda em Out.2012, 31,4% do crédito da banca às empresas estava concentrado no setor da construção e imobiliário, e apenas 13,7% nas empresas transformadoras e extrativas. Se somarmos o credito concedido às empresas e aos particulares (276.308 milhões € em Out.2012), 57,8% era crédito a empresas da construção e imobiliárias, e à habitação. O ministro da Economia fala da necessidade de reindustrializar o país mas o governo nada faz para alterar esta situação (concentração do crédito em atividades não produtivas e redução do crédito às empresas em 15.143 milhões €), o que mostra que não passa de palavras Esta cadeia de dependências sucessivas – endividamento financiado pela banca, financiamento desta no estrangeiro, 57% do credito bancário concentrado no imobiliário, construção e habitação – contribui para o agravamento da crise num quadro de uma politica de austeridade violenta e recessiva, e coloca problemas importantes à saída do euro que é necessário estudar.
Contrariamente àqueles que, parafraseado Fernando Ulrich (gestor de um banco –BPI- em que 97,1% das participações qualificadas já são controladas por grupos económicos estrangeiros), afirmam que a banca pode aguentar mais, uma análise da situação atual da banca portuguesa revela que, como consequência da má gestão, de que a politica de crédito já referida é uma prova clara, e da descapitalização realizada ao longo dos anos pelos banqueiros perante a passividade do BdP e dos sucessivos governos, associada à crise, agravou os problemas estruturais da banca que vão aumentar com a crise e a consequente subida do incumprimento e a retração do crédito (o negócio dos bancos). Basta recordar que o incumprimento a nível de empréstimos a empresas disparou (entre Dez.2010 e Nov.2012, com a politica do governo PSD/CDS e da “troika”, a taxa de incumprimento a nível de empresas aumentou de 4,4% para 10,8%, ou seja, em 145%); que as imparidades na banca (desvalorização de ativos), entre Dez.2010 e Set.2012, passaram de 13.545 milhões € para 15.153 milhões €; e, para além disto, a maior parte do crédito à habitação é de longo prazo a taxas de juro (inclui “spread”) inferiores a 2%, quando os bancos estão a pagar, para se financiarem, em muitos casos taxas de juro superiores. O caso do BANIF, em que o governo decidiu recapitalizar com 1.100 milhões € de fundos públicos (o que corresponde a 99% do seu capital atual), correndo o risco, como sucedeu no BPN, de os perder, é a “ponta do iceberg” da má gestão que é urgente exigir responsabilidades, o Estado controlar os maiores bancos, e não apenas a financiá-los à custa dos contribuintes.
Neste contexto, a saída do euro terá efeitos importantes no sistema bancário português que tem graves problemas estruturais, nomeadamente a nível do crédito concedido e, também, aos seus devedores, entre os quais se encontram centenas de milhares de famílias que obtiveram crédito à banca, cujas taxas de juros poderão disparar. Se juntarmos a isto, os problemas que se colocarão relativamente aos depósitos bancários de particulares (152.799 milhões € em Dez.2011), onde estão incluídas as pequenas poupanças de centenas de milhares de portugueses, cujo poder de compra é necessário garantir (os detentores dos grandes depósitos vão procurar transferir para o estrangeiro), fica-se com uma ideia, ainda não total, dos problemas que poderá acarretar a saída do euro, que não se resumem apenas à desvalorização do escudo e à subida de preços com alguns referem, que terão de ser estudados com profundidade e atempadamente, para não se ser confrontado com uma situação que não se previu. É certo que o Estado pode ser o garante do poder de compra desses milhares de pequenas poupanças, assim como de taxas de juro bonificadas às famílias, para evitar que o sistema financeiro e as famílias entrem em colapso, mas o certo é que a divida publica e a massa monetária disparariam, contribuindo para o aumento da inflação a que se juntaria os efeitos da desvalorização do escudo necessária para aumentar a competitividade das exportações, o que faria subir ainda mais os preços o que teria um efeito corrosivo, por ex., sobre salários e pensões. Haveria ainda o problema da divida externa que, com o governo PSD/CDS e com “troika”, já aumentou mais de 40.000 milhões €, e para a pagar, pelo menos a legitima, o país teria de ter divisas e a única fonte seriam as exportações e o endividamento externo. Obter o apoio da U.E. na divida externa seria uma condição fundamental para se poder sair do euro de uma forma controlada. São problemas como estes que terão de ser estudados com profundidade e de uma forma muito objetiva, não tomando os desejos pela realidade, para que se possa enfrentar, de uma forma controlada, a opção de saída do euro que se colocará se a atual politica de austeridade, que está a atirar o país para uma espiral recessiva, continuar.
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